Corria o ano de 1491 da Era Cristã.
São João, O Baptista, era Glorioso Bem-Aventurado havia quase quinze séculos, mas entendia que a sua obra no mundo tinha ficado inacabada.
De facto, urgia preparar os caminhos do Senhor, na iminência da sua segunda vinda, para tantos que não o tinham ainda acolhido.
Num dia de Primavera, João aparecia envolvido no nevoeiro da neblina matinal, que se elevava como incenso, do rio Douro; para pregar às multidões tripeiras.
Mas o povo do Porto andava desorientado e triste com a morte prematura do filho de D. João II, único herdeiro directo do trono, que caíra do cavalo na ribeira de Santarém; de modo que passou indiferente a fenómeno tão extraordinário.
Tendo confundido São João, O Baptista, que descia para lhes falar, com a alma do jovem príncipe que subia por entre o nevoeiro para não mais voltar... o povo tripeiro, continuou a rotina da sua recatada vida entre pescaria, comércio, artesanato, e agricultura da fruta e do vinho.
São João desalentado pela indiferença do povo tripeiro, vai num barco rabelo rio fora até ao mar, do Porto em direcção a um novo porto, Porto Santo; e enquanto seguia na pequena embarcação, seguia também nas pegadas de António, pregando aos peixes!
As baleias, que são os seres mais inteligentes dos oceanos, especializados em audição, escutavam atentamente o sermão de São João, preparando os caminhos do Senhor; e, emitindo sons através do ar insuflado nas narinas anunciavam-lhe para o futuro, grandes arraiais populares em sua honra, no Porto e em Porto Santo. E logo de seguida, dão vivas a João com majestosos saltos an água, e lhe batem palmas com os jactos de água que expelem na sua respiração, que não é mais do que o ar expirado rapidamente condensado.
Uma das baleias que assim festejavam São João, porém, tinha a particularidade de ter sobre o seu dorso a princesa das ninfas, de grande beleza, de nome Baleira.
As ninfas do oceano ou Nereidas, viviam vagueando no seio dos mares.
Elas cavalgavam no dorso dos peixes, como se de uma cavalgada terrestre se tratasse.
Baleira, tinha o cabelo da cor da areia e do sol, e os olhos da cor do mar. A pele parecia alabastro, e os lábios eram semelhantes a rubis, cor de cereja. O seu perfil era alto e esguio, flexível e harmonioso.
Era de facto uma princesa de grande beleza.
Ela pertencia ao oceano, e o oceano pertencia-lhe.
O dorso da baleia era o seu mundo.
Tecia o ritmo da sua rotina diária entre saltos e mergulhos.
Nele viajava até ao profundo dos oceanos, e nele voltava à superfície para mais saltos e mergulhos.
Todos os dias eram dias de festa, sobretudo desde que a baleia falara do sermão de João, e anunciara o grande arraial tripeiro.
A baleia conseguia comunicar a grandes distâncias no oceano, mas a ninfa não.
Dirigiram-se pois a toda a velocidade para o local de onde partia o sermão.
Baleira queria encontrar pessoalmente São João, e falar-lhe, porque tinha também ela um recado para ele.
Quando a baleia localizou o barco rabelo donde vinha o sermão, com a sua apuradíssima audição, Baleira endireitou-se no dorso, e vindo à superfície, voltou-se para São João.
João ficou maravilhado com a beleza de Baleira, só comparável à beleza dos anjos do céu; e Baleira ficou encantada com a luz que emanava de João, só comparável ao sol boreal do amanhecer no mar.
Então Baleira disse a João:
_____ Quando Nossa Senhora era velhinha, se viu sozinha, e na sua soledade chorou lágrimas de piedade.
Encharcou com as suas lágrimas um pano, que foi lançado ao oceano, e encontrado por mim. Ei-lo é vosso enfim ! Eu penso, que se trata do lenço de Maria, atirado ao mar, para alegria sem par dos peixes do oceano, que na sua alegria beijavam as lágrimas de maria, naquele pano.
_____ Mas tal lenço, segundo penso, não pode ter um destino qualquer ___ disse São João___ deve honrar a sua origem, no destino que lhe der.
E continuou profusamente o diálogo entre a ninfa princesa, de rara beleza, e João rodeado de luz, que vinha preparar os caminhos da segunda vinda de Jesus.
Nesse diálogo chegaram a acordo sobre o destino a dar a tão precioso lenço.
São João fundaria ali mesmo, naquela ilha de Porto Santo onde encontrara a ninfa, uma vila com o próprio nome dela. Essa vila teria como padroeira Nossa Senhora da Piedade, porque na sua Igreja Matriz estaria depositada, como famosa relíquia, numa pequena caixa de cristal, o tão precioso lenço.
E o lenço de facto esteve na Igreja Matriz, mas o pirata que por ali passara, o quis; também não admira, depois que o vira, encerrado numa caixa de cristal, pensou que tinha valor real, e não apenas estimativo.
Conta-se que o pirata naufragou, e o lenço de novo se perdeu no oceano, para alegria dos peixes, que continuaram a beijar aquele pano.
Não sabemos se a ninfa Baleira de novo o encontrou, mas o certo é que continuou sendo festejado e celebrado pelos peixes do mar, pelos mesmos peixes que escutaram São João pregar.
Mas Vila Baleira lá está, homenageando a ninfa e a padroeira.
A Padroeira da cidade continua sendo A Senhora da Piedade, que é ainda hoje do povo a alegria, e por isso tem romaria.
São João passou a ser festejado pelo povo do Porto e de Porto Santo, na noite de 23 de Junho, em romaria de grande alegria popular, conforme tinham anunciado as baleias do mar ... ! ...